quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Quando descobri que vou ser mãe de menina


       Pra quem não sabe, sou de uma família de mulheres. Muitas mulheres. Meu avô teve 6 filhas. Nasceram 5 netas e depois mais 2 bisnetas. De meninos, só nasceram 3, de forma espaçada e não convivo com eles.

       Pra completar, tive um pai bem ausente e cresci numa casa cheia de mulheres. Até os meus 9 anos éramos 6 mulheres na mesma casa. Apenas as 6, nada de homens.  Depois, minha avó se casou de novo e meu "vodrasto" passou a morar com a gente.

       Lá pelos meus 15 anos, minha mãe casou de novo. Fui morar com ela e meu padrasto. Ela engravidou e nasceu uma...menina. Fiquei craque em  cuidar de uma baby girl. Não ajudava muito, até porque estava no ano do meu vestibular (e achava que uma adolescente de 16 anos não tinha a menor obrigação de cuidar de neném haha), mas quando precisavam de mim, eu sabia muito bem executar minha função trocando fraldas, cantando todo o repertório de músicas de ninar e auxiliando no banho. 

       O tempo passou e minha mãe engravidou novamente. Adivinhem só? Pois é. Outra menina! Ah! E antes da minha irmã mais nova nascer, minha prima engravidou e nasceu uma...menina (que é minha afilhada)!

       Então, pra mim, o universo masculino praticamente não existiu. Mesmo quando passei a ter um 'vodrasto' dentro de casa, ele praticamente não tinha voz ativa, porque a palavra final era sempre da minha avó (coitado! hahaha). Além disso, ele era mega organizado. Essa coisa de cuecas e meias espalhadas pela casa, toalha molhada sobre a cama e outras 'homenzices' irritantes só fui saber que existiam depois de casada.

       Cresci em meio a maquiagens, perfumes, bolsas, esmaltes, flores, brincos, colares, dietas, frescuras, gritinhos, depressões por desilusões amorosas e, claro:  muito drama e exagero! Esse é meu mundo, muito prazer. Foi inevitável não me transformar num produto do meu meio e virar uma mulher cheia de "peruices" e comportamento pra lá de superlativo. Até porque minhas brincadeiras quando criança eram um complemento desse meu universo. Brinquei MUITO com as minhas bonecas e todas elas eram meninas. A 'Marina' era minha boneca preferida e me acompanhou por anos. Levava para viajar, passear, colocava pra dormir. As Barbies não ficavam pra trás e transformava meu quarto numa verdadeira cidade de Barbie. Amava também brincar de maquiagem, de me arrumar, colocar as roupas da minha mãe e depois fotografar, brincar de atriz, cantora. Depois teve a fase da cozinha, em que eu amava fazer brigadeiro, pipoca e uma torta de chocolate com côco, as únicas coisas que minha avó deixava porque eram fáceis e não corria grandes riscos de acidente doméstico rs. 

         Definitivamente, não fui uma garotinha 'moleca', que voltava pra casa toda suja depois de brincar de amarelinha e pique-bandeira. Nunca quebrei um braço ou uma perna. Nas aulas de educação física, quando iam escolher time, eu SEMPRE era a última a ser escolhida, porque não tinha a menor habilidade para esportes e sempre dava mini chiliques quando a bola chegava a mim, porque muitas vezes me machucava (tenho um  dedo torto até hoje por causa de um jogo de volley)  hahahaha.

              Só que conforme fui me transformando em adulta e comecei a pensar que um dia seria mãe, comecei a pensar que seria legal viver uma experiência diferente. Afinal, tudo que tinha para ser explorado no universo feminino, eu já tinha explorado, eu já tinha vivido (pelo menos eu achava). Comecei a pensar que seria legal viver um pouco longe de saias de tule rosa e sapatilhas de balé com fita de cetim. Talvez fosse interessante brincar de bola, de luta, comprar bonés e bermudas e deixar meu mundo mais azul.

             Comecei a pensar nisso por volta de uns 24, 25 anos e o pensamento foi tomando forma. Com o tempo, eu só me imaginava como mãe de menino. Já tinha até nome. Engraçado isso. Parece que eu estava negando tudo que tinha vivido até ali e como eu realmente era. Onde estava no meu imaginário a Marina, minha boneca preferida da infância? Cuidei dela com tanto amor. Por que ela não tinha espaço na vida real? Falando disso na terapia certa vez, minha analista disse algo óbvio, mas que nunca tinha pensado: a valorização do 'falo' na minha família era velada, mas existente. Faz sentido.

             O tempo passou, casei e engravidei. Na outra gestação que perdi, nem tive tempo de idealizar muito o sexo da criança, mas nessa...ah! Eu tinha certeza de que era um menino! Tudo de menino me chamava atenção nas vitrines. Menininhas na rua fazendo 'mini mulherzices' (como eu sempre fiz na infância, diga-se de passagem rs) me irritavam demasiadamente. Era definitivamente uma negação à minha família, às minhas raízes, a mim. Por que isso se adoro ser mulher e amo tudo do universo feminino?  Freud explica ou deveria explicar.

              Eu tinha certeza que gerava  um menino, até que lá pelas 10 semanas sonhei com meu 'vodrasto' (falecido em 2008) dando um pirulito enorme e colorido para uma menininha linda de uns 7 anos de idade. No sonho eu falava:"Não dá doce pra ela". Pronto. Acordei mãe de menina. Curioso eu sonhar justamente com a única referência masculina que tenho na família me apresentando a minha filha. Curioso e...  lindo demais!

             A única dúvida que eu tinha se meu sonho foi premonitório ou não, era que a menina para quem meu avô dava o pirulito não tinha nada a ver comigo nem com meu marido. Então, apesar de, no fundo, saber que viria uma baby girl, eu ainda pensava em meninos.

           Até que depois da translucência nucal e do risco fetal, já não aguentava mais de ansiedade e resolvi fazer a sexagem fetal. Poderia ter feito o exame antes, lá pelas 8/9 semanas, mas pelo trauma anterior, resolvi esperar pra ver se estava tudo certo com o bebê.

            O resultado saiu uns 4 dias depois da coleta de sangue. Acompanhava obsessivamente a cada minuto na internet. Até que quando estava pegando meu carro pra ir a uma consulta com a nutricionista, resolvi entrar no site do laboratório pelo celular mesmo e tinha saído o resultado! Para minha surpresa, não foi encontrado nenhum cromossomo 'y" na minha corrente sanguínea. Ou seja: MENINA! Fiquei em choque na hora. Não conseguia pensar em nada e nem dar a notícia pra ninguém. Apenas liguei o carro e fui em direção ao consultório da nutri.

             Quando parei o carro, liguei pro Eduardo pra dar a notícia. Ele ficou feliz. Claro que um pouco preocupado, porque ao contrário de mim, ele não teve qualquer relação com o universo feminino. Só teve irmãos e muitos primos homens, mas ficou muito feliz. Ainda mais sendo a primeira filha, a boneca, a princesa do papai.  Eu ainda estava no meu choque hahahah. Estava tão fora de órbita que esqueci minha pasta com TODOS os meus exames de gravidez no banheiro do Cittá América (shopping onde minha nutricionista tem consultório). Minha sorte foi que um anjo bom achou a pasta, pegou o telefone da minha médica numa receita e conseguiu meu telefone.

                 Confesso que esse primeiro dia foi estranho, confuso, porque tinha tanta certeza há anos que seria um menino, que foi difícil pra me acostumar. Só no dia seguinte que dei a notícia para todos. Minha mãe AMOU. Chorava de alegria como se não houvesse amanhã hahaha . Ela disse que tinha certeza que seria menina e só gritava (sim, GRITAVA): "eu sabia!! Minha netinha! Minha netinha!". Minha sogra também adorou a notícia! Ela só teve filhos homens e, apesar de já ter uma neta, o universo dela começa a ficar cada vez mais cor-de-rosa. Além disso,  o sonho dela era ter uma menina para colocar o nome de Manuela. O nome do meu marido, se fosse uma menina, seria Manuela. Eu jamais soube disso e  por MERA COINCIDÊNCIA escolhi o mesmo nome. Incrível né? A Manuela teria que vir de qualquer forma para essa família, ainda que tenha atrasado uma geração para chegar haha.  

                  Os dias foram passando e eu fui me acostumando com a ideia. Por que raios eu implicava tanto com meninas se eu sou uma, fui criada no meio de várias e sempre amei isso? haha Eu hein! Aí comecei a raciocinar friamente. Pensei nas relações entre mães e filhas ao meu redor. No geral, a filha é infinitamente mais companheira, mais amiga da mãe. Além disso, a mãe tem  a abertura de participar mais ativamente da vida da filha e quando esta se casa, leva marido e filhos para a casa da mãe. A mãe sonha e participa dos 15 anos, dos preparativos para o casamento (nem gosto né? haha), da gravidez, dos netos quando nascem. É a filha mulher que fica na cozinha tomando um vinho com a mãe enquanto elas fazem o jantar no final de semana. É a filha mulher que vai ao shopping, é a companheira de compras, viagens, salão. Quando os pais envelhecem , são as filhas mulheres que se dividem para dar assistência. O homem , na maioria dos casos (tudo tem exceção, claro), é mais bicho solto, 'desgarrado' e tende a ser mais afastado quando cresce. Quando casa, vive mais a vida na casa dos pais da esposa do que na casa dos seus próprios pais.

                 Lembrei da minha boneca Marina e por um instante pensei em colocar esse nome na minha filha (mas o marido não curtiu). Nada mais real, puro e genuíno. Eu teria a oportunidade de ter uma Marina DE VERDADE nos meu braços, colocar laços, brincos, enfeitar e levar pra todos os lugares comigo. Minha companheirinha de infância saiu da fantasia para ser minha parceira de vida. Incrível. Mágico.
                     
                 Comecei a curtir muito a ideia e a pensar que, mesmo se tivesse algum erro no exame, que eu já não queria menino de jeito nenhum! Queria ser mãe de menina de qualquer jeito!Na ultra de 16 semanas fui tensa rezando para a médica confirmar que seria menina mesmo e, graças a Deus, era! Ufa!
            Nasci para ser mãe de menina e isso estava nos planos de Deus o tempo todo, antes de eu nascer. Fui preparada a vida inteira para isso  e poucas têm esse privilégio. Se por um lado a presença do universo masculino deixou a desejar, fui presenteada com a complexidade do feminino o tempo todo a minha volta. Viver em meio a tantas mulheres interessantíssimas não é para qualquer um e a  Manuela vem para somar e abrilhantar esse time.

                     Vem, Manuela. Vem que já estou pronta para te receber desde sempre. Vem ser minha boneca, vem ser minha filha,  Vem ser mais uma mulher na minha vida. Ou melhor, A mulher da minha vida.               
             

7 comentários:

Aline lima da silva disse...

Ai que história linda. Que Manuela venha com muita saúde e traga muitas alegrias a sua família. Beijos.

Thaís disse...

Realmente ser ma~e de menina é muito bom e confesso que gostaria de ter outra menina.
Parabéns pela boneca!
Beijos

Carol disse...

Adorei o post!!! Com certeza Manuela só vai somar nesta família que ja é cheia de amor!!!

Bjão

Gê Simões disse...

Oi

Adoro a riqueza de detalhes dos seus posts.
Muito bom conhecer as historias, e que venha mais uma princesa pra movimentar essa familia cheia delas.
Que a Manuela venha cheia de saúde.

bjs

http://fofinhachega.blogspot.com

Gabriela Rodrigues disse...

Má, a maior coincidência essa do nome!!! =)
Manu vai ser tão princesa, tô até vendo já!!!
Que história, hein! =)


Beijos!!!

Gessica Morais (Kinha) disse...

Já eu sou filha única e cresci rodeada de primos meninos, mas nunca fui moleca, pelo contrário, também nunca fui fã de esportes, e sonho em ser mãe de menina, e meu marido também sonha com uma princesinha, espero que Deus realize nosso sonho..
Beijo
;)
www.umalindapromessa.com

Barbara Nunn disse...

Achei lindoooooo seu texto! Deus realmente sabe o que faz, né?! Manu vai ser uma princesinha nessa família de mulheres!
Eu estou um pouco apreensiva para a próxima ultra, que irá confirmar o sexo! Tomara que continue sendo a minha Ana Luisa! kkkkk
Beijão